ETFs de bitcoin e ethereum perdem US$ 1,22 bilhão com alta dos juros

Saídas de US$ 1,22 bilhão entre 5 e 9 de outubro de 2026. Rendimentos do Tesouro próximos a máximas de 2026 tornam renda fixa mais atrativa.

Rafael Andrade Mercados

ETFs de bitcoin e ethereum dos Estados Unidos registraram saídas combinadas de US$ 1,22 bilhão na semana de 5 a 9 de outubro de 2026, marcando a maior sequência de resgates de ETF desde o lançamento dos produtos à vista no início do ano. O movimento coincide com rendimentos dos títulos do Tesouro americano próximos às máximas de 2026 e valorização do dólar, que tornam aplicações de renda fixa mais atrativas em comparação com ativos que não pagam juros.

Bitcoin abriu em US$ 83.673 na segunda-feira, 12 de outubro, mas recuou para US$ 82.724 ao longo do dia. Ethereum seguiu trajetória semelhante, saindo de US$ 2.534 para US$ 2.530. As quedas de 0,35% e ganho residual de 1,13%, respectivamente, refletem volatilidade contida em meio à reprecificação das expectativas de juros nos mercados.

Juros elevados competem com criptoativos

Rendimentos de títulos de dez anos do Tesouro americano subiram para níveis próximos dos picos locais de 2026, elevando a atratividade de fundos de mercado monetário e aplicações em renda fixa. Para investidores que buscam preservação de capital, títulos que pagam cupom fixo apresentam menos risco do que criptomoedas, especialmente quando a taxa livre de risco sobe.

A alta dos juros também encarece o custo de captação para empresas de tecnologia e reduz a atratividade de ações do setor, criando efeito indireto sobre o apetite por risco em ativos digitais. Volatilidade em índices de ações aumentou durante a semana, com investidores ajustando posições conforme o Federal Reserve sinaliza manutenção de política monetária mais restritiva.

Impacto desproporcional em ethereum

Embora ETFs de bitcoin tenham registrado os maiores resgates em termos absolutos, produtos baseados em ethereum apresentaram saídas proporcionalmente maiores em relação ao patrimônio sob gestão. Taxas de financiamento de ethereum viraram negativas em partes da semana, indicando posições vendidas no mercado de futuros, enquanto bitcoin manteve taxas próximas do neutro.

O comportamento divergente sugere que investidores institucionais estão diferenciando entre os dois ativos. Bitcoin, com narrativa de reserva de valor consolidada, sofreu menos pressão relativa do que ethereum, cuja proposta de valor está mais ligada à atividade econômica em protocolos DeFi e aplicações descentralizadas, setores que tendem a contrair quando o custo de capital sobe.

Fluxos podem reverter em semanas

Analistas apontam que os resgates de ETF não representam mudança estrutural, mas ajuste tático a condições macro. Se os rendimentos do Tesouro se estabilizarem, fluxos para ETFs de criptomoedas podem se normalizar em duas a três semanas. O padrão observado foi de sangria persistente ao longo de múltiplas sessões, descartando a hipótese de resgate pontual por erro operacional.

Para investidores brasileiros expostos a esses produtos de ETF, o momento reforça a importância de acompanhar não apenas o preço dos ativos, mas também os fundamentos macroeconômicos que movem capital entre classes. Títulos do Tesouro americano funcionam como âncora do sistema financeiro global, e quando seus rendimentos sobem, ativos de risco em todo o mundo sentem o efeito.

Dólar forte reduz apelo para investidores offshore

A valorização do dólar na semana de 5 a 9 de outubro reduziu o valor em moeda local de posições em criptomoedas mantidas por investidores fora dos Estados Unidos. Para um brasileiro, por exemplo, um bitcoin valendo US$ 83 mil representa menos reais quando o dólar se fortalece, mesmo que o preço em dólar permaneça estável. Esse efeito cambial adiciona pressão de venda quando investidores buscam realizar lucros ou rebalancear carteiras.

As próximas semanas dirão se o movimento de outubro foi apenas correção técnica ou início de tendência mais longa. Por ora, o mercado segue reagindo a sinais do Federal Reserve e ao comportamento dos rendimentos de longo prazo, deixando criptomoedas em segundo plano enquanto taxas de juros dominam o debate.

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