MicroStrategy reduz compras de bitcoin em 84% por recompras

Empresa comprou apenas 250 BTC na semana até 11 de outubro, contra 1.665 duas semanas antes. Gastou US$ 176 milhões em recompra de ações próprias.

Rafael Andrade Notícias

A MicroStrategy comprou apenas 250 bitcoins na semana encerrada em 11 de outubro de 2026, marcando queda de 84% em relação às 1.665 moedas adquiridas duas semanas antes. O gasto de US$ 21,5 milhões, a um preço médio de US$ 86.194 por unidade, contrasta com o ritmo acelerado que caracterizou a estratégia da empresa desde 2020 e levanta questões sobre mudanças estruturais na alocação de capital.

A desaceleração não resulta de falta de recursos. A MicroStrategy mantinha US$ 4,9 bilhões em reservas de caixa em 5 de outubro, segundo registro na SEC. O que mudou foi a prioridade: na semana até 4 de outubro, a empresa gastou US$ 176,3 milhões na recompra de STRC, ação preferencial, valor seis vezes maior do que o destinado a bitcoin. Na semana anterior, foram US$ 151,7 milhões em recompras contra US$ 142,7 milhões em bitcoin.

Recompras superam aquisições pela primeira vez

Pela primeira vez desde que adotou bitcoin como ativo de reserva principal, a MicroStrategy destinou mais capital à recompra de ações próprias do que à compra de criptomoedas. A mudança sinaliza resposta a pressões de acionistas ou ajuste tático diante de condições de mercado que tornaram a emissão de novas ações menos vantajosa.

Peter Schiff, crítico conhecido de bitcoin, argumentou que a fonte de financiamento das compras anteriores secou. A MicroStrategy emitiu bilhões em STRC nos últimos anos para financiar aquisições massivas de bitcoin, mas o volume de vendas dessas ações caiu acentuadamente. Com menos apetite do mercado por novos papéis, a empresa pode estar optando por recomprar ações existentes para sustentar o valor de mercado.

Holdings atuais e contexto histórico

A empresa detém 848.250 bitcoins, posição acumulada ao longo de anos de compras regulares. Em novembro de 2024, chegou a adquirir 55.500 moedas em uma única semana, demonstrando que a capacidade operacional para compras de grande volume existe. A queda para 250 bitcoins semanais, portanto, representa escolha deliberada e não limitação técnica.

O preço médio pago de US$ 86.194 está acima das cotações atuais de mercado, que giraram em torno de US$ 82.700 no dia 12 de outubro. Isso sugere que as compras foram feitas em momento de valorização momentânea do ativo ou que a média reflete operações realizadas ao longo de vários dias com variação de preços.

Impacto no mercado e percepção institucional

A MicroStrategy se tornou referência para investidores institucionais que buscam exposição a bitcoin via mercado de capitais tradicional. Suas compras regulares funcionavam como sinal de demanda corporativa sustentada, e a desaceleração pode ser interpretada como arrefecimento do apetite institucional, mesmo que temporário.

Ações da Strategy (ticker MSTR na Nasdaq) recuaram após a divulgação dos números de 12 de outubro. Investidores que compravam o papel como proxy para bitcoin agora enfrentam incerteza adicional: além da volatilidade do criptoativo, precisam considerar decisões de alocação de capital da própria empresa, que podem divergir da estratégia anterior.

Alternativas para manter o ritmo de acumulação

A empresa poderia retomar compras de maior volume se optasse por emitir dívida ou liquidar parte das reservas de caixa. Com US$ 4,9 bilhões disponíveis, teria condições de comprar cerca de 60 mil bitcoins aos preços atuais, volume suficiente para sustentar o ritmo antigo por meses. A escolha de não fazer isso indica preferência por preservar liquidez ou aguardar condições mais favoráveis.

Outra possibilidade é que a empresa esteja aguardando aprovação de instrumentos financeiros que permitam captação mais barata. ETFs de bitcoin e outros produtos regulados reduziram o diferencial de retorno que a MSTR oferecia como veículo de exposição indireta, pressionando as ações e tornando emissões menos atrativas.

Precedente para outras corporações

Empresas que seguiram a MicroStrategy na adoção de bitcoin como ativo de tesouraria podem interpretar a mudança de duas formas. Otimistas dirão que a empresa já acumulou posição suficiente e agora foca em otimização de capital. Pessimistas apontarão que a desaceleração reflete reconhecimento de limites práticos para a estratégia, especialmente quando o custo de oportunidade de carregar bitcoin sobe junto com taxas de juros.

Para investidores brasileiros que acompanham a MicroStrategy como termômetro do mercado institucional, a mensagem é de cautela. A empresa não abandonou bitcoin, mas ajustou prioridades. O próximo movimento dependerá de fatores que vão desde o preço do ativo até a recepção do mercado a futuras emissões de ações ou dívida.

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