Reservas da Tether caem 50% em três meses e levantam dúvidas

Cushion cai de US$ 8,23 bi para US$ 4,11 bi entre março e junho de 2026. USDT não cumpre GENIUS Act e enfrenta prazo da Europa em janeiro de 2027.

Beatriz Salgado Análise

As reservas excedentes da Tether caíram pela metade entre março e junho de 2026, passando de US$ 8,23 bilhões para US$ 4,11 bilhões, segundo atestação da BDO Italia divulgada em junho. A redução de 50% em um único trimestre ocorre em momento crítico, com a empresa enfrentando prazos regulatórios nos Estados Unidos e na União Europeia.

O cushion de reservas representa o excesso de ativos sobre passivos da Tether. Em 31 de março de 2026, a empresa mantinha ativos de US$ 191,77 bilhões contra passivos de US$ 183,54 bilhões. Em 30 de junho, os ativos caíram para US$ 187,75 bilhões enquanto os passivos subiram para US$ 183,64 bilhões.

A queda de quase US$ 4 bilhões em ativos totais em três meses não foi explicada pela Tether. A empresa não publicou detalhamento sobre vendas, liquidações ou desvalorizações que justifiquem a redução. O aumento de US$ 100 milhões em passivos indica expansão marginal na emissão de USDT no período, mas insuficiente para explicar a compressão do cushion.

Auditoria da KPMG não esclarece composição

A Tether anunciou em 13 de agosto de 2026 que a KPMG US emitiu opinião sem ressalvas sobre as demonstrações financeiras completas de 2025 da Tether International. A KPMG verificou fisicamente cada barra de ouro mantida pela empresa, confirmando existência e identificação, em vez de confiar apenas em relatórios de custodiantes. O CEO Paolo Ardoino declarou publicamente que "nenhuma pedra ficou sem ser virada".

A auditoria mostrou que as reservas da Tether excediam seus passivos em US$ 6,814 bilhões em 31 de dezembro de 2025. No entanto, a empresa não publicou as demonstrações financeiras auditadas, impedindo análise externa sobre composição de reservas, tratamentos contábeis ou estrutura de passivos. Bloomberg reportou que as demonstrações não foram divulgadas junto com o anúncio.

Uma opinião sem ressalvas cobre apenas a precisão histórica das demonstrações apresentadas. Segundo análise da CCN, isso não atende aos requisitos do GENIUS Act para composição de reservas, licenciamento ou auditorias mensais. A legislação americana estabelece que emissores com mais de US$ 50 bilhões em tokens em circulação devem apresentar demonstrações financeiras auditadas anualmente por firmas de contabilidade registradas.

A discrepância entre o cushion de US$ 6,814 bilhões em dezembro de 2025 (auditado pela KPMG) e US$ 8,23 bilhões em março de 2026 (atestado pela BDO) levanta questões sobre metodologias contábeis diferentes ou mudanças significativas no primeiro trimestre de 2026. A Tether não explicou publicamente essa variação.

Bitcoin e ouro nas reservas criam problema regulatório

Dados da Arkham Intelligence indicam que a Tether mantinha cerca de US$ 60 bilhões em Bitcoin em suas reservas. Em 30 de junho de 2026, a empresa detinha aproximadamente US$ 24,6 bilhões em Bitcoin e ouro combinados, representando cerca de 13% dos ativos totais. Essa composição contrasta com a abordagem de concorrentes como Circle.

O GENIUS Act, aprovado pelo Congresso americano em 2026, estabelece lista restrita de ativos permitidos para reservas de stablecoins. Bitcoin e ouro não constam dessa lista. A legislação exige que emissores substituam ativos não permitidos por equivalentes de caixa, títulos do Tesouro americano de curto prazo ou depósitos bancários segurados por agências federais.

A Tether não solicitou licença do GENIUS Act para USDT. A empresa desenvolveu o token USA₮ para conformidade com a legislação americana, mas mantém USDT em estrutura global fora desse framework. Stablecoins não conformes perdem elegibilidade para listagem em exchanges americanas reguladas após 18 de julho de 2028, criando pressão temporal para adaptação ou migração de usuários.

A decisão de manter Bitcoin e ouro nas reservas reflete filosofia diferente sobre backing de stablecoins. Enquanto legisladores americanos e europeus favorecem ativos líquidos de baixo risco, a Tether argumenta que diversificação em ativos de reserva de valor oferece proteção adicional. Críticos apontam que volatilidade desses ativos pode comprometer a paridade 1:1 com o dólar em cenários de estresse.

Europa impõe prazo de janeiro de 2027

A Autoridade Europeia de Valores Mobiliários e Mercados (ESMA) ordenou em outubro de 2026 que corretoras europeias removam USDT até prazo vinculado a 8 de janeiro de 2027. A ordem está relacionada à falta de autorização do USDT como token de moeda eletrônica sob o regulamento MiCA (Markets in Crypto-Assets).

O MiCA exige que stablecoins operando na União Europeia obtenham licenças de instituições financeiras autorizadas e mantenham reservas segregadas em custodiantes europeus. A Tether não iniciou processo de conformidade com MiCA para USDT, concentrando esforços no token EUR₮ para o mercado europeu. Exchanges europeias terão aproximadamente três meses para implementar a deslistagem a partir de outubro de 2026.

Segundo relatório do Congressional Research Service de 2 de outubro de 2026, emissores com mais de US$ 50 bilhões em circulação enfrentam requisitos de auditoria completa sob o GENIUS Act. Com aproximadamente US$ 184 bilhões em USDT circulante, a Tether está mais de três vezes acima desse limite. A empresa nunca produziu auditoria completa por uma Big Four antes da KPMG em 2026.

Impacto para investidores brasileiros

O Banco Central do Brasil vetou o uso de USDT e USDC para pagamentos internacionais em resolução de outubro de 2026, mas brasileiros continuam usando stablecoins em exchanges para negociação e como meio de arbitragem internacional. Dados da Keenable.ai de setembro de 2026 indicam que USDT domina 88,7% da atividade de stablecoins no Brasil, muito acima do USDC.

A redução de 50% no cushion de reservas em três meses levanta questões sobre estresse financeiro ou mudanças estratégicas não divulgadas. Possíveis explicações incluem resgates concentrados de USDT, desvalorização de ativos de reserva, ou realocação estratégica de capital. A falta de transparência impede que investidores avaliem qual cenário é mais provável.

A falta de publicação das demonstrações auditadas pela KPMG dificulta avaliação independente dos riscos. Enquanto a auditoria confirma que ativos excediam passivos em dezembro de 2025, a composição exata das reservas e a explicação para a queda trimestral permanecem indisponíveis ao público. Investidores institucionais geralmente exigem esse nível de transparência antes de manter exposições significativas.

Circle, emissora do USDC, mantém estrutura de conformidade mais transparente com auditorias mensais públicas realizadas pela Grant Thornton e reservas compostas exclusivamente por caixa e títulos do Tesouro americano de curto prazo. Para investidores brasileiros que priorizam transparência e conformidade regulatória, USDC pode representar alternativa com menor risco de deslistagem em exchanges globais após os prazos de janeiro de 2027 na Europa e julho de 2028 nos Estados Unidos.

A situação da Tether ilustra tensão entre modelos de negócio de stablecoins e preferências regulatórias. Enquanto USDT mantém dominância de mercado por liquidez e disponibilidade em exchanges globais, pressões regulatórias crescentes nos principais mercados podem forçar mudanças estruturais ou migração gradual de usuários para alternativas conformes. Investidores brasileiros devem monitorar desenvolvimentos regulatórios e manter diversificação entre emissores de stablecoins.

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