Brasil lidera adoção global pela primeira vez
O Brasil alcançou o primeiro lugar no Índice Global de Adoção de Criptomoedas da Chainalysis pela primeira vez em setembro de 2026, superando Estados Unidos, Nigéria e outros 155 países avaliados no relatório anual. A classificação se baseia em atividade on-chain medida entre 1º de julho de 2025 e 30 de junho de 2026, período em que o mercado cripto brasileiro movimentou US$ 252,5 bilhões, representando 43,7% de toda a atividade registrada na América Latina.
A Chainalysis destacou que o Brasil manteve desempenho consistente em todas as métricas do índice: segunda posição global em fluxos internacionais, terceira em transações totais de serviços, terceira em economia ponto a ponto doméstica e quarta em saldos on-chain. O relatório aponta que o país superou economias mais estabelecidas, como os Estados Unidos, em adoção relativa ao tamanho da população e do PIB, mesmo durante o mercado baixista de 2026.
Crescimento contra a maré global
A América Latina registrou expansão de 9,8% em atividade on-chain no período analisado, contrastando com queda de 1,6% na média global. A região movimentou US$ 593,8 bilhões, sendo que o Brasil sozinho respondeu por US$ 252,5 bilhões desse total. O crescimento regional ocorreu enquanto a capitalização do mercado cripto global despencava aproximadamente pela metade, eliminando cerca de US$ 2,1 trilhões em valor de mercado.
Segundo a Chainalysis, a resiliência da América Latina durante o mercado baixista se explica pelo pivô coletivo para stablecoins e pelo uso de criptomoedas como proteção contra volatilidade cambial. Enquanto investidores em mercados desenvolvidos reduziram exposição a ativos de risco, usuários latino-americanos aumentaram adoção de tokens atrelados ao dólar para preservar poder de compra diante de pressões inflacionárias e desvalorização de moedas locais.
Explosão de stablecoins no Brasil
A atividade com stablecoins no Brasil saltou 495% no período de 12 meses encerrado em junho de 2026. Transferências ponto a ponto cresceram 562% na faixa de US$ 10 mil a US$ 100 mil e 666% no intervalo de US$ 100 a US$ 1 mil. O crescimento foi impulsionado por empresas que passaram a usar tokens atrelados ao dólar para liquidez e liquidação de operações internacionais, além de pessoas físicas que buscam dolarização informal de patrimônio.
Globalmente, transferências internacionais em stablecoin subiram 77,5%, atingindo US$ 220,3 bilhões. Transações de varejo abaixo de US$ 100 cresceram 78,4%, indicando que stablecoins deixaram de ser ferramentas exclusivas de grandes operadores e penetraram o uso cotidiano em economias com inflação elevada e controles cambiais. O Brasil concentrou parte significativa desse crescimento, com usuários migrando de moedas locais para USDT e USDC em volumes recordes.
Regulação concentra fluxos em exchanges licenciadas
Novas regras do Banco Central elevaram exigências de capital para instituições de pagamento que operam com criptomoedas, pressionando corretoras não autorizadas a encerrar atividades. Quatro exchanges fecharam as portas em 2026: Bitnuvem em abril, NovaDAX em junho, Digitra em agosto e Coinext em setembro, afetando aproximadamente 200 mil clientes que precisaram migrar saldos para plataformas licenciadas.
A concentração regulatória elevou a participação de corretoras autorizadas nos fluxos de entrada de recursos para o mercado cripto brasileiro. Segundo dados do Banco Central, plataformas licenciadas passaram de 1,5% para 12,5% do volume total de entradas, consolidando atividade em empresas que cumprem requisitos de capital mínimo entre R$ 10,8 milhões e R$ 37,2 milhões, dependendo do porte da operação.
Economia cripto de US$ 9,4 trilhões
A atividade on-chain global totalizou US$ 9,4 trilhões no período de julho de 2025 a junho de 2026, queda de US$ 100 bilhões em relação aos 12 meses anteriores. A contração foi menor que a registrada na capitalização de mercado, indicando que investidores reduziram exposição a tokens de alto risco, mas mantiveram uso funcional de criptomoedas para pagamentos, transferências internacionais e proteção cambial.
O Brasil se destacou por manter crescimento enquanto mercados desenvolvidos contraíram. O índice da Chainalysis pondera volume bruto de transações, intensidade de uso ponto a ponto, fluxos cross-border e distribuição de saldos em carteiras, ajustando os números pelo tamanho da economia e da população de cada país. A metodologia favorece jurisdições onde criptomoedas penetram camadas amplas da sociedade, não apenas investidores institucionais.
Contexto de mercado baixista severo
O período analisado pelo relatório coincidiu com um dos mercados baixistas mais prolongados da história das criptomoedas. Bitcoin oscilou entre US$ 38 mil e US$ 68 mil durante os 12 meses, encerrando junho de 2026 em torno de US$ 54 mil, aproximadamente 60% abaixo do pico histórico de novembro de 2021. Ethereum caiu de US$ 3.200 para US$ 1.900 no mesmo intervalo, pressionando retornos de investidores que entraram no mercado durante o ciclo de alta.
Apesar da queda de preços, a adoção de base continuou crescendo em mercados emergentes. A Chainalysis observou que economias com inflação acima de dois dígitos e controles cambiais mantiveram demanda por stablecoins e criptomoedas mesmo com Bitcoin e altcoins despencando. O Brasil se encaixa nesse perfil, com inflação de 4,8% em 2025 e pressão sobre o real que levou investidores a buscar dolarização via USDT e USDC.
Posição relativa supera economias maiores
O índice da Chainalysis ajusta volume absoluto de transações pelo PIB e pela população, permitindo que países menores superem economias gigantes quando adoção per capita é mais intensa. O Brasil venceu os Estados Unidos em adoção relativa, mesmo que o volume bruto de transações em cripto seja maior em território americano. A métrica reflete que uma fatia maior da população brasileira usa criptomoedas regularmente, enquanto nos EUA a atividade se concentra em investidores institucionais e traders profissionais.
Nigéria, que liderou o índice em 2024 e 2025, caiu para terceira posição em 2026. O país africano enfrentou repressão regulatória mais agressiva que o Brasil, com o banco central nigeriano ordenando bloqueio de contas de corretoras e restringindo acesso a plataformas internacionais. A diferença regulatória entre Brasil, que optou por licenciamento e supervisão, e Nigéria, que escolheu proibições diretas, aparece refletida nas posições do ranking.