Corretoras cripto têm até 30 de outubro para licença do BC

Mercado de US$ 318,8 bilhões enfrenta prazo final em 30 de outubro. Cerca de 120 prestadores devem protocolar licença ou encerrar operações no Brasil.

Rafael Andrade Notícias

Prazo final em 30 de outubro define futuro do mercado

As corretoras de criptomoedas que atuam no Brasil enfrentam um divisor de águas em 30 de outubro de 2026. O mercado brasileiro, avaliado em US$ 318,8 bilhões, verá aproximadamente 120 prestadores de serviços de ativos virtuais protocolando pedidos de licença junto ao Banco Central ou encerrando as operações. A regra marca a transição definitiva do modelo informal para o regime regulado que entrou em vigor neste ano.

Segundo relatório da CertiK divulgado em outubro, o Brasil ocupa a quinta posição global em adoção real de criptomoedas. Quase um terço de toda a atividade cripto da América Latina flui por carteiras e plataformas brasileiras, volume que equivale aproximadamente ao dobro da soma de Argentina e México. As corretoras cripto locais atendem milhões de usuários e processam bilhões em transações mensais. A janela de 270 dias para adequação, que começou a contar após a publicação das normas finais, está prestes a se fechar.

Capital mínimo varia entre R$ 10,8 milhões e R$ 37,2 milhões

As exigências de capital representam a barreira mais alta para muitas empresas. Dependendo da categoria de licença solicitada, o patrimônio líquido mínimo oscila entre R$ 10,8 milhões e R$ 37,2 milhões (cerca de US$ 2 milhões a US$ 6,7 milhões). Prestadores que oferecem apenas custódia enfrentam requisitos menores, enquanto plataformas que combinam negociação, custódia e liquidação ficam no topo da escala.

Além do capital, cada pedido deve incluir um relatório de segurança razoável emitido por firma de auditoria registrada na CVM. O documento precisa atestar que os controles de prevenção à lavagem de dinheiro e sanções funcionam de forma efetiva. Corretoras cripto estrangeiras que atendem clientes brasileiros a partir de estruturas offshore têm 270 dias após a autorização para transferir as operações para o território nacional.

Stablecoins dominam 80% do volume declarado

O peso das stablecoins no mercado brasileiro adiciona complexidade ao cenário. Cerca de 80% do volume declarado de negociação passa por moedas estáveis, sendo que USDT representa 88,7% desse fluxo. Entre 2019 e 2025, a atividade total com stablecoins no Brasil somou R$ 1,13 trilhão, segundo dados compilados pela CertiK.

A concentração em USDT contrasta com as recentes restrições do Banco Central ao uso de USDT e USDC em pagamentos internacionais, criando incerteza sobre como as corretoras licenciadas deverão estruturar a oferta desses ativos após o prazo. O regulador ainda não publicou orientação específica sobre stablecoins não reguladas em ambiente doméstico.

Segurança e consolidação devem marcar próxima fase

O relatório da CertiK aponta que, apenas no primeiro semestre de 2026, o setor global de criptomoedas perdeu US$ 1,32 bilhão em 344 incidentes de segurança. Comprometimento de carteiras respondeu por US$ 444,5 milhões dessas perdas, enquanto phishing causou US$ 366,3 milhões em prejuízos. A empresa resume a mudança no mercado brasileiro com uma frase: "A capacidade de provar substitui a capacidade de prometer".

Analistas do setor esperam que parte das 120 empresas atualmente ativas opte por não solicitar a licença, seja por não atender aos requisitos de capital, seja por custos operacionais incompatíveis com o modelo regulado. A consolidação é vista como inevitável, com fusões e aquisições previstas para os próximos meses. Plataformas maiores já começaram a adquirir carteiras de clientes menores, antecipando a reconfiguração do mercado de criptomoedas.

O Banco Central não divulgou estimativa de quantas licenças pretende conceder nem estabeleceu prazo para análise dos pedidos. A ausência de cronograma oficial significa que corretoras cripto que perderem o prazo de 30 de outubro ficarão impedidas de operar enquanto aguardam autorização, transferindo clientes para concorrentes já licenciados ou em processo de licenciamento. Especialistas em regulação financeira estimam que o processo de análise pode levar de três a seis meses, período durante o qual empresas não licenciadas ficam completamente fora do mercado.

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