SEC prepara mercado para negociação 24 horas: o que muda globalmente

Mesa redonda da SEC em 17 de setembro reúne NYSE, Nasdaq e BlackRock para discutir negociação 24 horas e tokenização de valores mobiliários.

Beatriz Salgado Análise

A Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos (SEC) convocou as principais instituições financeiras do país para uma mesa redonda em 17 de setembro de 2026 com um objetivo ambicioso: preparar a infraestrutura necessária para negociação de ações 24 horas por dia, sete dias por semana. O encontro, que acontece na sede da SEC em Washington, reúne Robinhood, NYSE, BlackRock, Nasdaq, Interactive Brokers, DTCC e outras 13 organizações.

A iniciativa reflete uma mudança estrutural no pensamento regulatório americano. Tradicionalmente, mercados de capitais operam em horários fixos que datam de uma era anterior à tecnologia digital. A proposta de expandir para operação contínua reconhece que investidores globais, plataformas de criptomoedas e necessidades de liquidez não respeitam o horário comercial de Nova York.

Três pilares da transição para mercados contínuos

A agenda da mesa redonda divide a discussão em três áreas principais. A primeira aborda prontidão operacional: como bolsas, corretoras e sistemas de liquidação funcionarão durante períodos que tradicionalmente eram de manutenção. Isso inclui vigilância de mercado durante a madrugada americana, quando volumes seriam menores e manipulação potencialmente mais fácil.

O segundo pilar trata de resiliência operacional. Sistemas financeiros precisam de janelas de manutenção para atualizações, backups e correções. Em um mercado que nunca fecha, essas operações precisam acontecer sem interromper negociações. A discussão inclui cibersegurança, confiabilidade de dados de mercado e escala de equipes para suporte 24 horas.

A terceira área examina impactos de mercado e próximos passos. Como a negociação contínua afeta liquidez? Empresas listadas terão que monitorar e responder a movimentos de preço durante a madrugada? Quais mudanças de infraestrutura são necessárias para suportar a expansão gradual até operação completa 24x7?

Perspectiva brasileira: acesso ampliado com novos riscos

Para investidores brasileiros que operam em mercados americanos, a mudança traz oportunidades e desafios. Atualmente, ADRs de empresas brasileiras negociados na NYSE ou Nasdaq só podem ser comprados ou vendidos durante o horário de pregão americano, que corresponde aproximadamente a 10h30-17h no horário de Brasília.

Com negociação 24 horas, um investidor em São Paulo poderia reagir a notícias corporativas divulgadas após o fechamento dos mercados sem esperar até o dia seguinte. Isso reduz o gap de overnight que frequentemente gera saltos de preço na abertura. No entanto, também significa que volatilidade e risco se espalham por todo o ciclo de 24 horas.

A B3, principal bolsa brasileira, não sinalizou planos similares. O horário de negociação permanece 10h-17h45 em dias úteis, com aftermarket estendido até 18h. A diferença pode criar arbitragem: ações com dupla listagem poderiam mostrar preços divergentes entre mercados que operam em janelas diferentes.

Lições do mercado de criptomoedas

O modelo de operação contínua não é novo. Exchanges de criptomoedas como Binance, Coinbase e Kraken operam 24x7 há anos, processando bilhões de dólares em negociações mesmo durante fins de semana e feriados. A experiência desses mercados oferece insights valiosos sobre os desafios que aguardam o mercado tradicional.

Primeiro, volumes caem dramaticamente em horários de baixa atividade. Dados de exchanges mostram que negociações entre 2h e 6h do horário da costa leste americana representam menos de 8% do volume diário. Spreads aumentam e manipulação de preços se torna mais fácil quando há menos participantes ativos.

Segundo, eventos inesperados durante madrugadas causam movimentos exagerados. Flash crashes em criptomoedas frequentemente acontecem quando grandes ordens de venda atingem mercados com baixa liquidez. Mecanismos de circuit breaker precisarão funcionar 24 horas, mas sua calibração durante períodos de baixo volume é complexa.

Terceiro, a infraestrutura técnica precisa de redundância adicional. Exchanges de cripto enfrentam ataques DDoS e tentativas de invasão constantemente. A superfície de ataque aumenta quando sistemas nunca entram em modo de manutenção tradicional.

Tokenização como facilitador técnico

Embora a agenda oficial da mesa redonda da SEC não mencione tokenização diretamente, a SEC publicou propostas relacionadas em agosto de 2026. As regras atualizadas pela SEC para agentes de transferência permitiriam que blockchains funcionem como registros oficiais de transações. Endereços de carteiras digitais poderiam servir como identificadores de investidores.

Essa infraestrutura é essencial para negociação 24 horas porque blockchains já operam continuamente. Se ações tokenizadas forem liquidadas em blockchain público, a necessidade de janelas de manutenção diminui. A Intercontinental Exchange (ICE) investiu na tZERO para desenvolver exatamente essa infraestrutura de valores mobiliários tokenizados.

Para o Brasil, isso abre questões sobre interoperabilidade. Se ações americanas forem tokenizadas e negociadas 24x7, investidores brasileiros precisarão de acesso a carteiras digitais compatíveis. Corretoras locais terão que integrar com essa infraestrutura ou arriscar perder clientes para plataformas internacionais.

Cronograma e obstáculos regulatórios

A mesa redonda de 17 de setembro é apenas o início de um processo longo. Mudanças dessa magnitude exigem alterações em regras da SEC, adaptações por bolsas e corretoras, e potencialmente legislação do Congresso americano. Analistas estimam que implementação completa levaria pelo menos três a cinco anos mesmo com forte apoio político.

Resistências virão de múltiplas direções. Sindicatos de trabalhadores de mercado financeiro questionarão as implicações para escalas de trabalho. Pequenas corretoras argumentarão que custos de operar 24 horas as colocariam em desvantagem contra grandes players. Empresas listadas podem resistir à obrigação de monitorar preços e divulgar informações fora do horário tradicional.

Além disso, coordenação internacional será necessária. Se apenas mercados americanos operarem 24x7 enquanto Europa e Ásia mantêm horários tradicionais, a fragmentação de liquidez pode piorar em vez de melhorar. Conversas preliminares entre reguladores do G7 sugerem interesse em abordagem coordenada, mas diferenças de fuso horário e cultura regulatória complicam o alinhamento.

O que investidores devem observar

A curto prazo, mudanças concretas são improváveis. A mesa redonda da SEC em setembro produzirá relatório e recomendações, não regras imediatas. Investidores podem esperar período de consulta pública da SEC seguido de propostas graduais, começando talvez com extensão modesta do horário de negociação antes de saltos para operação contínua.

A médio prazo, atenção aos pilotos e programas experimentais. A SEC pode autorizar negociação estendida para classes específicas de ativos, como ETFs que rastreiam criptomoedas, antes de expandir para ações individuais. Essas experiências revelarão problemas práticos e informarão o desenho final.

A longo prazo, a convergência entre mercados tradicionais e cripto parece inevitável. Negociação 24x7, liquidação instantânea via blockchain e acesso global são características que investidores jovens consideram padrão depois de anos operando em Bitcoin e Ethereum. Mercados que não se adaptarem arriscarão perder relevância para a próxima geração.

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