USDT e USDC controlam US$ 258 bilhões do mercado de stablecoins
Tether (USDT) e USD Coin (USDC) dominam o mercado global de stablecoins com participação combinada de US$ 258 bilhões, deixando apenas US$ 53 bilhões para todos os demais concorrentes em setembro de 2026. O USDT sozinho representa US$ 183,4 bilhões, cerca de 60% do mercado total de stablecoins.
Para usuários brasileiros, stablecoins funcionam como ponte entre o real e o ecossistema cripto, permitindo proteção contra a volatilidade do Bitcoin e do Ethereum sem sair do universo digital. A dominância de duas moedas cria liquidez concentrada, mas também eleva riscos de contraparte.
USDC mantém US$ 74,5 bilhões em circulação
O USD Coin, emitido pela Circle, possui US$ 74,5 bilhões em circulação. A stablecoin ganhou participação de mercado em 2026 após a Circle divulgar auditorias mensais completas de suas reservas, realizadas pela KPMG desde janeiro.
A transparência do USDC atrai instituições financeiras tradicionais que exigem conformidade regulatória. Blackrock e Fidelity utilizam USDC em seus fundos tokenizados de treasuries americanos, produtos que captaram mais de US$ 2 bilhões em 2026.
Tether mantém liderança apesar de controvérsias
O USDT permanece como a stablecoin mais negociada globalmente, processando volumes diários superiores a US$ 80 bilhões. A Tether enfrenta críticas recorrentes sobre a composição de suas reservas e a falta de auditoria completa por uma das quatro grandes firmas de contabilidade.
Em agosto de 2026, a Tether publicou um relatório de atestação mostrando reservas de US$ 6,8 bilhões acima dos passivos, reduzindo pela metade o buffer que mantinha em janeiro. A empresa atribuiu a redução a investimentos em mineração de Bitcoin e empréstimos garantidos.
Alternativas somam US$ 53 bilhões
Entre as stablecoins menores, USD1 da World Liberty Financial atingiu US$ 4,3 bilhões, ocupando a sexta posição. PayPal USD permanece abaixo de US$ 3 bilhões, apesar da integração nativa com a plataforma de pagamentos da empresa.
DAI, a stablecoin descentralizada do protocolo MakerDAO, mantém cerca de US$ 5 bilhões em circulação. Diferentemente de USDT e USDC, DAI é colateralizada por criptomoedas depositadas em contratos inteligentes, não por dólares em contas bancárias.
Uso de stablecoins no Brasil cresce 180%
Brasileiros utilizam stablecoins principalmente para três fins: arbitragem entre exchanges nacionais e internacionais, remessas para o exterior, e proteção contra desvalorização do real. O volume mensal de stablecoins movimentado por usuários brasileiros cresceu 180% entre janeiro e setembro de 2026.
Corretoras brasileiras não oferecem pares diretos USDT/BRL ou USDC/BRL devido à proibição do Banco Central sobre uso de stablecoins em pagamentos transfronteiriços, implementada em maio de 2026. A medida visa proteger o monopólio do sistema de pagamentos instantâneos Pix.
Risco regulatório afeta modelo de negócio
A regulação MiCA da União Europeia exige que emissores de stablecoins mantenham 60% das reservas em bancos europeus e limitem a circulação a 200 milhões de euros por emissor. Tether anunciou que não buscará licença MiCA, efetivamente saindo do mercado europeu regulado.
Nos Estados Unidos, dois projetos de lei sobre stablecoins tramitam no Congresso. O GENIUS Act exigiria auditoria mensal e reservas 100% em treasuries e dinheiro, eliminando investimentos alternativos que a Tether utiliza. O Clarity Act propõe estrutura semelhante, mas com supervisão dual entre SEC e CFTC.
Impacto da dominância de duas moedas
A concentração de 83% do mercado em três stablecoins (USDT, USDC e a terceira colocada) cria pontos únicos de falha sistêmica. Uma corrida bancária em qualquer uma dessas moedas afetaria todo o mercado cripto, dado que exchanges usam stablecoins como garantia para empréstimos e derivativos.
O colapso do TerraUSD em maio de 2022 demonstrou os riscos. A stablecoin algorítmica, que chegou a US$ 18 bilhões, perdeu sua paridade com o dólar em 48 horas, vaporizando US$ 40 bilhões em valor de mercado total do ecossistema Terra/Luna.
Transparência e auditoria dividem o mercado
USDC publica composição detalhada de reservas mensalmente, com 80% em treasuries de curto prazo e 20% em dinheiro em bancos regulados. Tether divulga apenas categorias amplas, sem identificar bancos custodiantes ou duration dos títulos mantidos.
Para investidores institucionais brasileiros, essa diferença importa. Fundos de investimento regulados pela CVM que desejam exposição a stablecoins preferem USDC devido à rastreabilidade de auditoria, mesmo que USDT ofereça maior liquidez.
Perspectiva para o quarto trimestre
A Circle planeja IPO nos Estados Unidos até o final de 2026, tornando-se a primeira emissora de stablecoin de capital aberto. A transparência exigida pela SEC pode forçar Tether e outros competidores a elevar seus padrões de divulgação.
No Brasil, o Banco Central estuda regulamentação específica para stablecoins, separada das regras gerais para criptoativos. A proposta incluiria requisitos de reserva fracionária e proibição de uso em comércio eletrônico, limitando as moedas a aplicações DeFi e transferências entre exchanges.